segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Em defesa do “Diálogo”

São tantas as formas de comunicação: sinais, escritas, desenhos, objetos, imagens e cores. Usamos o corpo, o som, a tecnologia, a locomoção, partilhamos informações transformando a comunicação numa ferramenta de integração, instrução e troca mútua. Porém como fica o diálogo?
Segundo o dicionário, diálogo é a conversação entre duas ou mais pessoas numa troca de intervenientes com o objetivo não de analisar as coisas, ganhar discussões ou trocar opiniões, seu propósito é suspender as opiniões e observá-las, embora se desenvolva a partir de pontos de vista diferentes, o verdadeiro diálogo supõe um clima de boa vontade e compreensão recíproca.
Dialogar não é fácil, nem entre países, nem entre grupos, nem entre pessoas, nem entre empresas e funcionários.

Entre todos os déficits que lidamos atualmente, os que mais nos preocupam são os financeiros e econômicos.  Palavras como crise,  greve, manifestação e juros nos cercaram em notícias e noticiários mostrando o quanto temos dificuldades no campo da resolução de conflitos. Em exemplos recentes, observamos o que a falta de diálogo pode promover numa sociedade, um dos casos é a proposta da prefeitura de São Paulo para a reestruturação das escolas. No projeto, a ideia era transformar as escolas esvaziadas em centros culturais, de idiomas, de educação para adultos e ensino profissionalizante, mas a simples tomada de decisão sem consulta dos envolvidos gerou a rejeição do projeto. 
Outro exemplo é o resultado da pesquisa feita pela consultoria Great Place to Work (GPTW) apontando que mesmo com novos modelos de gestão internacionais, as empresas brasileiras apresentam grande nível de insatisfação com seus funcionários devido à falta de comunicação, ato que gera maior volume de processos trabalhista, afastamento médico e rotatividade de colaboradores.
Você não faz a paz com seus amigos, você faz a paz com seus inimigos
Essa foi a frase dita pelo primeiro ministro de Israel Yitzhak Rabin ganhador do Prêmio Nobel da Paz em 1994 para exemplificar a importância do diálogo, e não somente no aspecto político, mas em todas as áreas de nossas vidas, temos que apreender a partilhar as opiniões, como falar, quando falar, treinar nossa habilidade de lidar com os problemas, entender os fatores chaves para encontrar e quebrar as relutâncias, dialogar não significa concordar com tudo, mas sim chegar a um denominador comum.

Convidamos a relações públicas e gerente global de comunicações internas da Votorantim Viviane Mansi, especialista em comunicação interna, para falar um pouco sobre o impacto do diálogo dentro e fora das organizações.

(Blog Café&Finanças) Os atos de falar e escutar, mesmo que de pontos de vista diferentes, e a troca de idéias, fazem surgir o diálogo, podemos diferenciar os tipos de diálogos como empresarial, organizacional e pessoal ou não há diferença?
(Viviane Mansi) Não há diferença na prática. Para o diálogo acontecer é necessário, antes de tudo, boa intenção, disposição e generosidade. Ouvir é uma habilidade que usamos bem menos que falar. Precisamos equilibrar essas partes para termos mais qualidade no diálogo.

No seu livro Comunicação, Diálogo e Compreensão nas Organizações você menciona a dificuldade de diálogo nas empresas em momentos de crise, qual a importância econômica do diálogo nas relações corporativas?
Se dialogamos, diminuímos resistências e aumentamos a abertura das pessoas para lidarem com situações que são diferentes do que eles imaginaram. O que acontece durante períodos de crises é que os executivos acabam lidando com muitas incertezas ao mesmo tempo. Quando isso acontece, preferimos não falar para não nos comprometermos com fatos /ações que podem vir a seguir e não temos controle sobre elas. O problema é que as pessoas criam fatos onde há um vácuo de informação. Se não falarmos, as pessoas imaginam e isso passa a representar a realidade. Todo mundo sai perdendo. 
Onde perdemos mais tempo, dinheiro e produtividade é justamente na falta de alinhamento interno.
E nos momentos de vacas gordas as empresas têm feito seu papel facilitando o diálogo entre seus colaboradores internos, promovendo campanhas de endomarketing ou isso ainda é escasso no Brasil?
Felizmente não é mais escasso. As empresas estão aprendendo que fazer boa comunicação com empregados ajuda a construir um legado e compromete as pessoas. Onde perdemos mais tempo, dinheiro e produtividade é justamente na falta de alinhamento interno. Quando investimos tempo em compartilhar informações importantes para as pessoas trabalharem melhor, a melhoria é imediata. Isso ajuda os empregados a verem sentido no seu trabalho. Veja que eu estou usando o termo “comunicação com empregados” em vez de “endomarketing”. Endomarketing, na minha opinião, é excelente para quando a empresa precisa falar de um novo produto, fazer uma campanha em que as pessoas participem muito, mas quando o assunto não é bom, fazer marketing interno perde o sentido. Como fazer endomarketing quando o tema é uma crise? Ou quando precisamos anunciar um desligamento em massa? Nesses casos, precisamos de uma comunicação clara, acolhedora e que “ouça tanto quanto fale”.

O melhor dos mundos seria desenvolvermos a habilidade de pensar o futuro, considerar as premissas e envolver os impactados para participar verdadeiramente da busca de soluções
Blog Café&Finanças Vemos famílias, lideres, grupos e governos tomando decisões que resultam em conflitos pela falta de diálogo. Na sua opinião onde está o erro?
Em geral, queremos tomar decisões rápidas. Dialogar requer tempo e habilidade. Não adianta tomar uma decisão e tentar dialogar para as demais partes envolvidas aceitarem essas decisões. Isso não é diálogo. É imposição. O diálogo até pode ajudar esses casos, mas não pressupõe um bom resultado, pois as pessoas percebem que entraram tardiamente no processo. O melhor dos mundos seria desenvolvermos a habilidade de pensar o futuro, considerar as premissas e envolver os impactados para participar verdadeiramente da busca de soluções. Isso aumenta maturidade dos grupos, demonstra boa vontade, e compromete as pessoas. Nem sempre é possível, claro, mas existem muitos problemas que poderiam ser evitados. Pensemos na reestruturação das escolas em São Paulo. Particularmente acho a premissa boa e articulada, mas a população não acreditou na boa intenção e na solução criada. Só acompanhei o assunto pela mídia, mas a narrativa central foi o fechamento de escolas. Se o foco estivesse nos ganhos, na possibilidade de mais espaços de lazer, creches ou centros de convivência, talvez a reação fosse outra. Ficou a dúvida, baseada em experiências anteriores.

 O que precisamos mesmo é de gente falando com gente
Blog Café&Finanças E sobre o excesso de diálogo, gera confusão?
De forma nenhuma. Excesso de informação gera confusão, especialmente quando o volume está desconectado de um propósito maior ou quando as pessoas não sabem identificar as informações mais relevantes dentro de um grande volume. Eu não sou contra volume de informação, mas ele tem que ser dialogado; não pode só acontecer só por via impressa. Tem que ter duas vias. Se isso acontece, o volume tem mais valor, pois as pessoas passam a entende-lo melhor e se aprofundar onde faz mais sentido para si. Eu receio que se começarmos a controlar volume de informação, passemos a ser menos transparentes. O que precisamos mesmo é de gente falando com gente. Havendo boa intenção, disposição e generosidade, está criado o campo adequado para o diálogo.
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